Fálica

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Por Tati Bernardi

Clarice era uma mulher fálica. E o que fazer com essa nova informação? Usar isso para o que? Comer uma mulher? É, não seria uma má idéia para ela que estava cansada de atrair homens “xânicos”. Explico, calma. Clarice, uma publicitária de 31 anos, tinha acabado de descobrir na sua terapia que era uma mulher com pinto. Não na vida real, na vida comportamental. Resumindo: ela se comportava, em alguns muitos casos, como homem.
Ela entrava pisando firme num restaurante e já ia pedindo uma mesa para dois não fumantes, ela pegava a mão do cara respeitoso e enfiava no meio dos peitos dela, para acabar logo com aquele papo furado de elocubrações da vida. Ela não gostava de discutir muito o relacionamento a dois quando estavam sozinhos e num lugar reservado, achava que essa situação só poderia pedir gemidos. Por fim, ela pagava a conta do motel quando levava meninos estudantes e cheios de vida para lá.
Mas tudo o que Clarice queria, era um homem com o pinto maior do que o dela. Tudo. Era tão difícil assim? Um homem que a fizesse sentir tão mulher que a deixasse descansar dessa auto-defesa homem de ser. Ane, sua amiga que vivia da pensão do ex marido (apesar de não ter filhos e Clarice achava isso o maior absurdo mas dava um desconto porque a amiga era divertida e o ex marido um babaca que a havia traído) passava o dia lendo revistas idiotas e acabara por ficar mais metida a Freud do que metida por homens.
Se você quer um homem de verdade, seja uma mulher de verdade. Mas você fica aí querendo competir com eles, não é? Mas o que era então uma mulher de verdade? Ou pelo menos uma que atrairia um homem de verdade? Seria a meiga falsa que já deu pra meia cidade mas mantêm o semblante de virgem com medinho? Seria a submissa que apenas sorri para toda e qualquer opinião do bonitão? Ou pior de tudo, umas cem vezes: seria aquela mulher que espera o prícipe encantado que vai ensinar a vida para ela, mostrar a vida para ela e pagar a vida para ela e tudo o que ela precisa fazer é um boquetinho com a tática de cobrir os dentes com os lábios voltados para dentro da boca?
Uma mulher de verdade é feminina, só isso. Fernanda, sua amiga de infância que vivia querendo competir com ela mas no fundo a admirava muito e acabava por fazer o papel de alterego vulgar em sua vida) fala isso prendendo os cabelos num elástico ensebado e ajeitando os peitos no decote. Clarice se irrita e pensa em falar um milhão de palavrões à amiga que tem seus dias nada meigos, como os de hoje. Mas falar palavrão seria pouquíssimo feminino da parte dela. Perfeito! Constatando isso ela solta todos eles, se libertando do assunto e da feminilidade. As amigas percebem que os homens nas mesas em volta olham feio e com apenas um olhar, ou melhor, quatro olhares, elas fuzilam Clarice, a fálica que sempre põe o pau na mesa e afasta todos os testosteronas em volta.
Clarice permanece confusa, puta da vida e mal humorada durante exatos dez minutos. E depois abre o maior berreiro. Chora, soluça, enfia o rosto no meio das mãos. Naquele momento, ainda que vermelha e toda borrada de rímel, a frágil Clarice atrai mais o interesse dos homens do que quando chegou no restaurante em seu carro novo, feliz e bem sucedida.
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