Lições da Dança

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Estava eu voltando na aula, dia nebuloso, cinza, quente demais para já ter chovido. Ainda que cansada, sem muita vontade de conversar, sentei ao lado de uma menina jornalista que normalmente fala bastante, mas que é muito inteligente. Mesmo que não quisesse falar, queria ouvir. Não precisou mais de um “oi, como vai” para que viesse dela uma gama enorme de assuntos e visões. Deve ser muito bom ter os olhos dela em relação ao mundo, é sempre muito rico e repleto de possibilidades. Conversa vem, e continua vindo, ela me questionou sobre o que faria nas férias. Naturalmente, respondi: “dar aulas de dança”. Surpresa e meio embaraçada, mas sempre verdadeira, ela não conseguiu conter o espanto e disse: “sempre achei que tu fosses para o ramo da política, nunca te imaginei dançando”. Sorri. Entendo o que ela quer dizer. Tenho uma dureza, uma firmeza que transborda, e a dança, requer tanta suavidade, que ficaria incapaz de haver isso em mim. O mais estranho é que há. Aprendi dançando a nada menos que 17 anos que é preciso graça para executar os movimentos, no entanto, é preciso segurança, firmeza nos passos, pois é isso que difere o amador do profissional. Aprendi ainda que não importa o quanto você saiba, precisa subir ao palco como se o melhor fosse, cabeça erguida, coluna ereta: o espetáculo é agora. É preciso também seguir o ritmo, aquela ordem maior que diz “siga”, “pare”, “acelere”. Quando algo sai errado e a seqüência é esquecida, a bailarina continua e não permite que ninguém perceba que ali, bem naquele instante, há um erro. É a arte de encantar. Como diria o Chico, a bailarina não tem febre amarela, problemas na família, calcinha velha ou namorado. No palco, é a representação, a beleza, o inalcançável pela irrealidade que esse acarreta. A bailarina, como o poeta, é uma fingidora. Aprendi também que o teto pode cair, a luz pode apagar, a música pode pular ou cessar, você continua dançando – e sorrindo. Todos esses imprevistos tiram a fantasia e é dever da dançarina mantê-la, custe o que custar. Timidez é algo desconhecido, por isso, jamais existirá no palco. Quem dança entende que será observado, ainda que sozinho, em casa. Os holofotes são amigos, muito mais que as câmeras, por exemplo, pois eles te cegam. Engraçado, porém real. Do palco a bailarina não enxerga o público, apenas uma grande sombra que vaia ou aplaude dependendo da magia que ela despertada. As câmeras, por serem tão precisas e tão inanimadas, são somente ditadores apontando falhas: a maestria do momento não se salva em filme. Da dança, aprendi também que personalidade é tudo. Não importa se os passos são os mesmos para 300 pessoas, cada uma imporá neles sua marca. O belo de dançar está exatamente ai: nunca, em hipótese alguma, vai ser igual. Nem mesmo se for a mesma bailarina, porque os dias também nos modificam. Aprendi também certa dose de drama, dispensável, mas inalienável de mim. Pense: em 3 minutos quem está no palco precisa fazer você, espectador, mudar de idéia. A bailarina precisa convencer sem falar uma palavra. É a linguagem do corpo, é o som produzido, tocado, é a identificação, é o que você sente e vê, além do pensar. A bailarina, eu, tanto faz, são partes de um todo que me torna plena pra vida. Das qualidades e dos defeitos que tenho certamente muitos, se não todos, derivam dos palcos. Talvez a dançarina não esteja visível em mim em todos os dias, mas eu sou ela a vida toda.

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Uma resposta »

  1. Vanessa, bom este texto, assim como os outros.
    Além de bailarina, és mestre na arte de expressar-se pelas as palavras. Como lhe disse, tens talento para o jornalismo. Muito mesmo. Mas como relutas, simplesmente quero convence-lá de tornar-se escritora.

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